Prof. Dr. Silas Molochenco
Doutor em Psicologia e Analista Clínico
Tel. 9.4558.2710 – Email molochenco@uol.com.br
A crise de identidade diante de Deus
Ao entrarmos em contato com Deus, quer queiramos ou não, surge diante de nós a Imagem de Deus. É interessante que na grande maioria das pessoas, quando oram, oram se referindo ao Pai, mas não tem seu pensamento voltado para o Pai. Clamam ao Pai, mas a imagem que possuem em suas mentes é a Pessoa do Filho[1]. Os Evangelhos, que revelam o Filho, facilitam em termos a identidade do Filho em nossas orações. Fui pastor de uma igreja de etnia alemã e a grande maioria das pessoas, em seu início da oração clamavam: “Senhor Jesus…”. Dizemos em nossas orações: “Deus Pai. Senhor nosso Deus. Amado Pai”. Mas a pessoa que nos vem à mente e a do Filho.
Qual é o valor da ideia de Deus para mim. Em que circunstâncias tenho contato em alteridade com Deus? Em que eu e Deus nos apresentamos como pessoas, uma verdadeira oração? Na minha convivência há espaço para o meu “Eu” e o “Eu” da pessoa de Deus? No pensamento da filosofia da modernidade não há espaço para a identidade de Deus. Só há espaço para o que ele pode fazer. Há algum tempo em que as pessoas oravam dizendo: “O Senhor está amarrado nas promessas que fez”. Desta forma Deus impede o ser humano de ser ele mesmo. Ele só pode ser dentro dos limites da oração invocada. Sartre afirmou certa vez, que a ideia de Deus é funesta ao ser humano. Que ela traz consigo desventura, desgraça e agonia. Segundo esse pensamento o ser humano está interditado de tomar-se em suas mãos e manifestar-se na qualidade de quem ele é. Fica impedido e até proibido de fazer a sua história como Ser, permitindo-o simplesmente escrever a sua história manufatureira; suas atuações como indivíduo como cultura material ou produto deliberado da minha mão de obra humana. Minha existência é ameaçada por essa essência maciça que se apresenta diante de mim como força ameaçadora que é a pessoa de Deus. Devo apresentar-me condignamente manifestando a minha defesa dessa intrusão que me desenraiza de mim mesmo. A ideia de um Deus absoluto impede o ser humano de ser si mesmo, pois esse Deus preenche todo o espaço, como Ser absoluto não permitindo ao ‘outro’ da relação se apresentar ou se mover. Nestes casos não há alteridade, pois o Deus da relação se apresenta independente de qualquer outra relação a não ser consigo mesmo por causa do seu absolutismo. O ‘outro’ inexiste. No absoluto não há lugar para o “alter” – alter heteros. Teoricamente, o narcisista só vê a si mesmo. Só a sua imagem pode ser vista e admirada. No mito de Narciso o ‘outro’ é a sua própria imagem. Da mesma forma se manifesta o autista severo. Para ambos, o outro é uma coisa, um objeto. Não existe um alter-ego. A alteridade é fato constituidor da minha identidade. A minha identidade convoca o ‘outro’ para que este se manifeste e este ‘outro’ corresponde ao chamado, fazendo com que ele apareça, se torne presente em sua identidade. Neste processo temos a intersubjetividade/alteridade onde um e outro, pela troca de informações, isto é, sistema capaz de ser transmitido por uma combinação de sinais pertencentes a um repertório finito, que acabam por constituir, mutuamente, transformações da identidade. Só há crescimento na vida através dos diálogos entre identidades. O ‘outro’ alter-heteros, este me evoca, convoca-me a sair do enclausuramento de mim mesmo. Paradoxalmente, o outro é parte construtiva da minha identidade. Enquanto falamos da identidade, da alteridade e o quanto ambas influem na formação de Ser, tudo o que me constitui faz com que o meu Ser se manifeste apontando quem sou e o que sou. Pouco acima mostramos alguns textos nos quais Deus se manifesta como por exemplo pelo seu nome ‘Eu sou Deus’, o Senhor dizendo quem ele é. Em seguida, ao evocar seu nome ele mostra o que ele é. Ele diz: Eu sou o criador dos céus e da terra. Se meditarmos no texto acima, nos parece impossível dizer o que alguém faz sem dizer quem ele é. O nosso processo de vida nos mostra o que somos, a expressão de nossa existência. Mas, este mesmo processo de vida também abre as portas para mostrar quem somos, manifestação de nossa identidade (FRIESEN, 2000. p. 65).
[1] Esta verdade ficou comprovada em uma pesquisa feita pelos alunos da classe de Autocompreensão. Cerca de 80% das pessoas ao orarem tem em mente a pessoa de Jesus.
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